Uma saudade que se chama Emílio Santiago
28/08/2017 - 10h15 em Música

O Brasil anda carente de vozes. Vive em tempos difíceis onde as novas gerações sofrem pela fragmentação da vida moderna e acabam por não fazer um trabalho com a qualidade que era vista alguns anos atrás, seja pela dificuldade de difusão de seu nome por uma mídia que não descrimine suas belas vozes ou pela dificuldade de gravação e incentivo para criação original. Aqui e ali se escondem os bons cantores de Vera Cruz, porém acorrentados aos seus produtores musicais que ditam a regra de seu trabalho (impossibilitando o processo de fazer arte) ou aos sucessos que não lhe pertencem, repaginando canções ou indo para o estúdio fazer karaokê.

Há quatro anos, partiu para a eternidade o cantor Emílio Santiago. Sempre nestes momentos de tristeza pela música feita na atualidade surge saudade dos bons. E justamente nesta fila das nossas melhores vozes está Emílio Santiago à primeira vista. E a saudade do maior cantor brasileiro de todos os tempos não é à toa: a história deste artista nos ajuda a mostrar a importância de repensar as formas de se trabalhar com a arte. De origem pobre, Emílio conseguiu participar nos anos 1970 de vários concursos de calouros e sempre passava em todas as seleções para programas de televisão.

Eram tempos de Flávio Cavalcanti e Chacrinha. Os artistas que eram simpáticos com o público e tinham talento conseguiam alcançar os primeiros lugares pela divulgação feita por estes baluartes da música no Brasil. Simpatia e talento, Santiago tinha de sobra! Onde quer que fosse convidado a conceder uma entrevista ele ia, assim como todos os programas televisivos, onde ele esbanjava profissionalismo e elegância indistintamente.

Emílio Santiago e as 7 Aquarelas

Como todo artista que dependia de oportunidades que somente o dinheiro de alguns podia fazer aparecer, Emílio precisou cantar e, muito, sucessos de ouro da Música Popular Brasileira. No entanto ele se apropriou das canções que coloriram o Brasil e fez sua própria Aquarela.

Aliás, uma não – sete! Foram sete Aquarelas onde ele interpretou canções da época de ouro do Rádio, da era dos festivais (onde estão os festivais?), do Rio seresteiro, do samba-canção dos anos 50 aos boleros de todo o povo latino, dos sambas-enredo ao rock dos anos 80.

Emílio fez aquarelas e ainda conseguiu colocar nelas músicas que ficariam para sempre marcadas em seu repertório, lançadas em primeira mão nos seus trabalhos. Ficaram conhecidas na sua voz: Verdade ChinesaLesões CorporaisLogo AgoraSaigonFlamboyant entre outras.

A cantora Alcione, amiga pessoal do artista, recentemente, disse: “não sei se alguém vai conseguir cantar Flamboyant como ele…”. Para se certificar de que a cantora está com toda a razão, basta ouvir os versos: “(…) e eu pousava nos pianos por aí tal qual um sabiá pousa num flamboyant (…)”.

Ficamos com saudade das boas músicas e do tempo em que ela ainda era tratada como arte e emoção. Essa saudade se chama Emílio Santiago. Ouvir essa voz perfeita nos faz pensar sobre a oportunidade que não está sendo oferecida às novas gerações, de compor, cantar e lançar. Ainda existem vozes maravilhosas, porém escondidas nos bares da noite e nos pequenos teatros por aí. Os grandes programas de televisão, as grandes gravadoras e os grandes incentivadores, lamentavelmente, estão se contentando com os “cantores” de “músicas” feitas ou para fazer ginástica ou para beber loucamente em uma destas festas medíocres espalhadas pela noitada a fora.

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